Você sabe quanto vale R$20?


Eu sei!
E você?

Fim de semana... Sexta... Sábado.
Eu poderia ter ficado em casa vendo filme ou estudando.
Mas a grana tá cada vez mais escassa. Tive que arrumar um "bico" pra poder pagar o meu jaleco novo de enfermagem. Tem que ser todo certinho, na medida e tal. Pois é, isso custa R$30.
E com R$30 dá pra comer mais de uma semana. Dá pra quase pagar a conta de luz.

Lá fui eu. Panfletora de uma locadora de filmes. Três horas, em pé, no sol, com fome, com sede.
Em pé em frente a uma padaria, onde o fluxo de pessoas é maior. Realmente. Elas entravam e saiam e com elas o maravilhoso aroma dos pães de queijo quentinhos. Afff! E a fome pegando...

Nessas três horas milhões de coisas me passaram pela cabeça.
Por que as pessoas não pegam o panfleto?
Por que muitas delas fazem cara de nojo?
Por que atiram no chão no próximo passo?
Por que fazem que não estão me vendo?
Por que??

Porque elas não sabem quanto vale R$20.
Impressionantemente, quem me tratou melhor foram os negros e os homossexuais, pegavam o panfleto e sorriam. Um sorriso e boa educação basta. E o porquê disso? Eles sabem o valor de uma nota de R$20.
Aquela mãe que fez faxina um dia inteiro e tem 5 filhos para dar comida, sabe.
Aquela mãe que tem R$15 e o remédio do filho custa R$20, sabe.
Aquela mulher que se prostitui, sabe.
Aquele homem que ganha e entrega tudo para os supermercados e contas, também sabe.
Mas...
E aqueles dos carrões que custaram R$60.000?!
Eles sabem?
Pois pra mim, não.
Eles não estenderam a mão em nenhum momento. Me olhavam com cara de nojo, ou com certo medo, repúdio.
Pois eu estava trabalhando. Trabalhando, não roubando ou pedindo.
E a cada mão que se estendia e agarrava o panfleto, eu agradecia. Ele estava me ajudando a pagar o meu jaleco.


O dia que eu tiver na situação deles, eu pegarei o panfleto que me alcançarem às mãos. E ainda direi: -Eu já estive aí um dia.-
Hoje eu sou uma estudante. Amanhã, só Deus sabe.

Nunca humilhe alguém inferior na classe social. É ruim.
Acho que muitas vezes é por isso que os jovens caem no mundo da marginalidade. Porque não há retorno das pessoas. O que se encontra nas ruas é uma gente rica, nojenta, com seus poodles de pedigree, que educam seus filhos para serem como eles.
E ainda acham que são A Nata.


Essa sou eu, Laís Mota, 19 anos, técnica em enfermagem, humana.
E já entreguei panfleto na vida. Vale R$20 e uma experiência a mais.


Abraços.

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